Armas, sexo, ditadura e crianças. Drogas não.
Armas, sexo, ditadura e crianças. Drogas não.
A mente suja de muita gente grande deturpa tudo. Encontra chifre em cabeça de cavalo e vê nascer pelo em ovo!
Ao mesmo tempo, enquanto não crescem – para virarem, também, adultos de mente suja –, as crianças são só crianças e os adultos precisam se lembrar de que já foram crianças também. Brincaram, se divertiram e, nem tão inocentemente como muita gente pensa, se deliciaram tanto com suas brincadeiras quanto com as reações – ora de admiração, ora de escândalo – dos adultos.
Há muito tempo as crianças têm representado, no campo do imaginário, e tem brincado de guerras, de batalhas, de bandido-e-mocinho. Desde tempos imemoráveis, Aquiles já brincava de matar à espada seus amiguinhos, como também Sócrates o deve ter feito. Vários de nós brincamos de dar tiros com armas de brinquedos ou imaginárias, na tentativa de acertar nossos amigos-de-brincadeiras inimigos-de-guerra ou gangue.
Também no que diz respeito às brincadeiras sexuais, desde sempre estão presentes no mundo das crianças, desde cedo, o que é absolutamente normal. Quando ainda são pequeninos, adoram comparar seus genitais. Quando crescem um pouco, tocar o sexo do outro, ver se é igual ao seu, perceber que é gostoso manipular, faz parte das brincadeiras – e aqui sim cabe um alerta: os pedófilos de plantão sabem do quanto as crianças gostam de brincar com sua sexualidade e se aproveitam disso muitas vezes. Não é raro que meninas e meninos se masturbem mutuamente, sem falar nas muitas brincadeiras de papai-e-mamãe e de troca-troca que acontecem sem grandes traumas ou problemas psicológicos para seus pequenos praticantes.
Quantos às drogas, o falso puritanismo de todos os tempos dissimula não perceber que estão presentes nas brincadeiras há muitos anos. Basta ver a figura abaixo, que fez parte do dia-a-dia de muitos de nós que estamos lendo este artigo: são os “Cigarrinhos de chocolate”! Nicotina e alcatrão transformados em delicioso chocolate!!!

Hoje o jornal Folha de São Paulo publicou um caso que muita gente, influenciada no referido puritanismo, de que falei acima, julga polêmico: crianças de 5ºano (antiga 4ª série), de uma escola do interior do estado do Rio Grande do Sul, estavam colocando pó de giz em saquinhos de plástico e brincando de vender cocaína.
A professora que descobriu a brincadeira dos alunos, horrorizada, correu buscar orientação da direção escolar. É isso mesmo! Uma “educadora” se escandalizou com uma brincadeira infantil e correu, “assustada” em busca de ajuda a respeito daquela ignomínia: crianças de 10 anos brincando de algo tão horrível!
A diretoria da escola, por sua vez também horrorizada, buscou orientação da Secretaria de Educação. Isso mesmo!!! A direção da escola também se escandalizou com aquela brincadeira “bizarra”. Afinal de contas, num bairro de periferia, numa cidade tão violenta, crianças brincando de vender drogas, crianças de 10 anos de idade brincando de vender drogas, só poderia ser sinal de algo muito violento e imoral!
A Secretaria de Educação, sem saber muito bem como lidar com algo tão aberrante, levou o caso à Polícia Militar: uma instituição “modelo de honestidade e moralidade”, que vem desenvolvendo um projeto de combate ao tráfico de drogas no município em questão!
Afinal de contas, pra que é que os professores estudam psicologia e noções de psicanálise em sua formação inicial? Qual a utilidade das, no mínimo, 120 horas de estudos de Psicologia da Educação, se não for para compreender um pouquinho, pelo menos, do psiquismo infantil e do mundo do imaginário das crianças?
Brincar do que é proibido faz parte do imaginário de todos nós! Nossas fantasias infantis – e mesmo as de adultos – se conectam com o que é proibido, perigoso, “imoral”! Mas nosso puritanismo social, que se reflete na imprensa (“marrom” praticamente em sua totalidade), se escandaliza quando acontece de crianças, super criativas, resolverem brincar de vender drogas, como se isso fosse pior do que brincar de dar tiros ou facadas nos colegas, nos jogos de bandido-e-mocinho e de guerra! Imaginem só se cada menino que brincou de dar tiros com armas de brinquedos tivesse virado bandido!!! Se cada menino ou menina que fez troca-troca tivesse se transformado em homossexual ou heterossexual por conta disso! Se cada menina que tocou o sexo do amiguinho na curiosidade lúdica de saber como que era aquilo tivesse se tornado prostituta!
Mas esse caso relatado na Folha de São Paulo de hoje (e comentado na rádio CBN) não é único! Não. As crianças e adolescentes são muito criativos e deixam suas ideias viajarem pelo campo da imaginação.
Conheço o caso de um menino que foi parar na sala da Coordenadora Pedagógica do colégio onde estudava porque usou fua criatividade numa aula de Matemática!
A professora estava ensinando o que é simetria e pediu para que os alunos pesquisassem e encontrassem, na natureza, formas simétricas. Tendo observado uma ilustração com uma fotografia de Bob Marley estampada sobre o desenho de uma folha de Canabis Sativa – a maconha –, percebeu que a dita folha era perfeitamente simétrica. Comentou com os colegas e apresentaram um desenho de folha de maconha como exemplo de simetria presente na natureza. Foi pra sala da Coordenadora Pedagógica que lhe deu o “devido sermão” e fez despertar, também, a preocupação do diretor da escola que chegou a manifestar sua preocupação com o futuro do menino a seus pais! O caso provavelmente só não virou manchete de jornal porque o puritanismo dos dirigentes das escolas particulares – como neste caso – só não é maior do que o medo da propaganda negativa para os interesses de suas instituições comerciais.
Voltando ao caso dos meninos que estavam brincando de vender cocaína com pó de giz, vale a pena comentar o nome da escola onde estudam. Trata-se do nome de um ditador, populista que usurpou o poder que houvera conquistado e que só não apoiou o “eixo” durante a 2ª Guerra mundial por que se vendeu aos norte-americanos!
Adivinhe o nome desse gaúcho, que é “homenageado” pelos mesmos adultos puritanos escandalizados com a brincadeira das “tais” crianças, dando nome à essa escola em que elas estudam!!!
Escrito por Flávio Boleiz às 11h23




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