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Como morreu Anísio Teixeira?

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UnB Agência

MEMÓRIA E VERDADE - 10/08/2012

UnB instala Comissão da Verdade com depoimento inédito

Professor baiano surpreendeu os presentes na cerimônia ao narrar depoimentos que reforçam a suspeita de que Anísio Teixeira, fundador da Universidade, foi assassinado pelo regime militar

Débora Cronemberger- Da Secretaria de Comunicação da UnB
Paulo Castro/UnB Agência
Instalação da Comissão marca final do mandato do reitor José Geraldo

 

Um pedaço sombrio da história do Brasil começou a ser esclarecido no final da manhã desta sexta-feira, 10 de agosto. Quatro décadas após ser encontrado sem vida no fosso de um elevador, no Rio de Janeiro, um depoimento inédito pode mudar a versão oficial da morte de Anísio Teixeira, fundador da Universidade de Brasília e um dos nomes mais importantes da educação brasileira.

O relato, feito inesperadamente durante a instalação da Comissão da Verdade da instituição dirigida por Anísio Teixeira de junho de 1963 a abril de 1964, reforçou a importância da criação desta instância de investigação pelo reitor José Geraldo de Sousa Junior. Batizada com o nome do educador, a Comissão da Verdade nasce cumprindo seu propósito principal: resgatar a verdade de fatos ocorridos durante o regime militar, entre eles os desaparecimentos dos alunos do campus Darcy Ribeiro Honestino Guimarães, Ieda Santos Delgado e Paulo de Tarso Celestino.

Ao pedir a palavra, durante a cerimônia, João Augusto de Lima Rocha, professor da Universidade Federal da Bahia, surpreendeu os cerca de 150 docentes, alunos e autoridades presentes. Na tribuna do auditório da Reitoria, o professor revelou o conteúdo de três depoimentos aos quais teve acesso nos anos seguintes ao sepultamento do pioneiro da Educação Nova (leia aqui matéria sobre o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932).

As narrativas reforçam a suspeita de que Anísio Teixeira foi assassinado pelo regime militar, ao contrário do que relatam os documentos da época. O professor João Augusto afirma ter ouvido de Luiz Viana Filho, governador da Bahia quando Anísio Teixeira foi encontrado morto, que o educador foi preso no dia 11 de março de 1971 e levado para o quartel da Aeronáutica.

 

Paulo Castro/UnB Agência

Professor João Augusto de Lima Rocha, da Fundação Anísio Teixeira, em pronunciamento durante a instalação da Comissão da Verdade da UnB

 

 

A data é a mesma em que o educador desapareceu, após sair da Fundação Getúlio Vargas em direção à casa do filólogo Aurélio Buarque de Holanda, localizada no edifício Duque de Caxias, na Praia do botafogo, número 48. O corpo foi encontrado no fosso do elevador dois dias depois, em 13 de março. "Em dezembro de 1988, Luiz Viana Filho me confessou, com base em fontes militares de sua confiança, que Anísio foi preso no dia que desapareceu e levado para o quartel da Aeronáutica. A operação, segundo suspeitas do médico Afrânio Coutinho, teve como mentor o brigadeiro João Paulo Burnier, figura conhecida do regime militar e que tinha o plano de matar todos os intelectuais mais importantes do Brasil na época", disse João Augusto.

De acordo com os relatos de policiais da 10ª Delegacia de Polícia, responsáveis pela investigação do caso à época, Anísio Teixeira estava "de cócoras, com a cabeça junto aos joelhos, sob um platô de cimento armado, meio metro acima do fundo do poço". Havia ferimentos na base da cabeça e no rosto e respingos de sangue na parte interna da casa de força. Pasta de documentos e óculos estavam intactos ao lado do corpo. Os depoimentos dos agentes estão detalhados na edição de 15 de março do jornal Última Hora. Leia aqui.

Além do testemunho de Luiz Viana Filho, João Augusto soube do relato de dois médicos que viram o corpo de Anísio Teixeira durante a necrópsia. "Os médicos Afrânio Coutinho e Clementino Fraga Filho tiveram acesso ao corpo de Anísio devido a um engano do Exército. No dia que o corpo de Anísio foi encontrado no fosso do elevador, um militar havia se suicidado no mesmo bairro. Quando o rabecão passou para pegar o corpo do oficial, pessoas do prédio onde Anísio foi localizado pediram que levassem o corpo", contou. "Se soubessem quem era, talvez a necropsia não tivesse ocorrido". 

O professor conta que ouviu de Afrânio que os graves ferimentos de Anísio Teixeira jamais poderiam ter resultado de uma queda no fosso do elevador. Afrânio repassou ao professor a mesma opinião que teria escutado de Clementino. "Anísio teve todos os ossos quebrados, o que seria impossível acontecer com a queda no fosso", contou o professor à plateia, que, perplexa, ouvia atentamente e em silêncio. Leia aqui reportagem da revista DARCY sobre a trajetória de Anísio Teixeira.

Nenhum dos depoimentos foi gravado. Luiz Viana Filho e Afrânio Coutinho morreram, o primeiro em 1990 e o segundo dez anos depois. Clementino Fraga Filho é o único ainda vivo. "Nas conversas que tive com o ex-governador e com Afrânio, eles não aceitaram fazer o registro sobre o assunto. O depoimento de Clementino me foi passado por Afrânio", disse o professor. "Era uma outra época. As pessoas tinham medo de falar. A própria família de Anísio tinha receio, mas os filhos querem agora reaver essa história", comentou João Augusto. Segundo ele, Clementino está com 94 anos. "Vou tentar convencê-lo a falar publicamente sobre o assunto", completou.

João Augusto, que participou da cerimônia porque estava em Brasília para uma reunião da Federação de Sindicatos de Professores de Instituições Federais de Ensino Superior (Proifes) e viu o anúncio da instalação da Comissão da Verdade, revelou ainda que Afrânio Coutinho confidenciou ter escrito um texto contando a história da necropsia. O material, segundo o professor, teria sido deixado na sede da Academia Brasileira de Letras com a recomendação de que fosse tornado público apenas em 2021. "Passei 20 anos em busca de provas destas histórias. Ao saber da criação da Comissão, percebi que era hora de contar", disse. Leia aqui entrevista com o professor em que narra em detalhes o que ouviu.

 

Paulo Castro/UnB Agência

 

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Escrito por Flávio Boleiz Júnior às 15h35
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