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Carta da Terra


 
 

A Carta da Terra e a nova cultura da água

Segue a transcrição da conferência, proferida por Flávio Boleiz Júnior, na abertura do "Encuentro por la nueva cultura del agua en America Latina", realizado em Fortaleza - CE, em 5 de dezembro de 2005.

O sítio oficial do evento, é: http://www.unizar.es/fnca/america/index2.php?idioma=pt&x=00



Escrito por Flávio Boleiz às 20h59
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A Carta da Terra e a nova cultura da água - I

A CARTA DA TERRA: BASE ÉTICA PARA UMA NOVA CULTURA DA ÁGUA


FLÁVIO BOLEIZ JÚNIOR
Educador - Ecopedagogo 
Colaborador do Instituto Paulo Freire,
da Associação Verde Vida,
do Núcleo de Amigos da Infância e Adolescência
e da Associação Harmonia na Terra.
Representante oficial (focal point)
da Carta da Terra Internacional.


A Terra passa por momentos muito difíceis.


O imperialismo ditado pelos países membros do comitê de segurança da Organização das Nações Unidas liderados pelos Estados Unidos da América — entidade que deveria primar pela distribuição eqüitativa da justiça — tem, na verdade, distribuído sofrimento e dor, levados diretamente aos mais pobres do planeta, por meio das guerras. Tais confrontos belicosos visam sempre ao enriquecimento de alguém. Quem terá lucrado mais com as guerras das últimas décadas senão as empresas produtoras de armamentos e da área petroquímica? E essas são, justamente, as que mais dinheiro doam para as campanhas políticas nos diversos países ao mesmo tempo que contribuem diretamente para com o aquecimento do planeta e poluem os mananciais.


A Globalização capitalista tem acentuado a dominação, a exploração e a manipulação por parte dos poderosos. Um mundo globalizado visa a inclusão de todos no mundo do consumo, por um lado, mas por outro, a exclusão dos pobres do mundo dos direitos e da dignidade humana.


A Xenofobia reina de maneira explícita em algumas regiões do Globo e dissimulada em tantas outras. No Brasil convivemos com um racismo disfarçado que exclui das conquistas sociais milhões de afro-descendentes. Aqui, assim como em vários países latino-americanos, o mapa da pobreza e da exclusão social coincide com o mapa que delimita os territórios onde moram os negros, os indígenas e seus descendentes. E na Europa desenvolvida a realidade não é muito diferente. Também ali a xenofobia, o racismo e a arrogância impõem uma sub-vida aos imigrantes, sobretudo aos africanos, árabes, europeus vindos do leste e latino-americanos. Não por acaso pobres. E para os ricos e poderosos do planeta, como denuncia a canção de Gil e Caetano, os “pobres são como podres”. As reações terroristas geram medo e insegurança em toda parte.


O desequilíbrio econômico é generalizado, gerado pelas especulações de investidores que querem enriquecer a qualquer custo.


Grassa o ideal consumista que, descontroladamente, gera a destruição progressiva dos bens naturais.


São tantos problemas vivos no mundo que nos rodeia que, muitas vezes, não conseguimos sequer vislumbrar uma pontinha de luz no fim do túnel sem pensarmos num trem vindo na contramão.


Como é difícil assumir uma postura de esperança diante disso tudo! Que difícil imaginar um raio de sol quando se está sob uma carga de nuvens tão pesadas, carregadas, prontas a desabar sobre nós com seus raios e trovões!


Mas não podemos deixar de ter esperança. Não podemos nos esquecer de que a postura que se assume ao se escolher lutar por um mundo melhor não pode de for ma alguma ser pessimista. Não. Nós, militantes pelas causas do inédito viável temos que ser pessoas que, como dizia Hannah Arendt em sua obra “Entre o passado e o futuro”, “amem a sua condição humana e, por conseguinte, as novas gerações” e por extensão, toda a humanidade.

Mas aqui nos perguntamos: diante desse quadro que se apresenta à nossa realidade atual, como é que se pode viver um cotidiano militante como sujeitos amantes da condição humana? Como deve ser nossa ação, se queremos estar engajados na busca de uma transformação mundial? O que devemos fazer para construirmos um mundo diferente que garanta, às novas gerações, e a toda humanidade, melhores condições de vida, de igualdade, de justiça, de inclusão e inserção social; ou seja, um mundo melhor?


Buscamos respostas a essas perguntas, e elas sempre estiveram presentes em todas as épocas: desde os diálogos de Sócrates retratados por Platão na Grécia antiga, até nossos dias, em que estão tão latentes.


A ideologia hegemônica tem disseminado valores imorais, anti-éticos, desrespeitosos para com a condição de dignidade de toda a comunidade de vida do planeta. Nossas relações para com o meio 
ambiente tem se desenrolado de maneira, digamos assim, antropofágica; pois as relações de poder tal como se apresentam em nossa conjuntura atual, só tendem a confirmar a velha expressão que 
afirma que “o homem é o lobo do homem”. O ser humano tem se apresentado a seu semelhante como o mais temível e terrível de todos os predadores da natureza, incluindo toda a comunidade de vida e, mesmo, a sua própria espécie.


Precisamos mudar essa situação e inverter esses valores. Precisamos re-humanizar a espécie humana. Precisamos criar novos modelos que valorizem a sustentabilidade de nosso Planeta e de cada um dos entes que o habitam. Para tanto, precisamos conceber novas maneiras de viver e conviver, pautadas no equilíbrio das relações humanas que garantam a inserção social, a paz e a liberdade para toda a comunidade de vida.


O preâmbulo da Carta da Terra nos alerta para a necessidade de mudarmos a direção de nossa história. Ela nos diz que “estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que no meio da uma magnifica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela 
natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que, nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações.” 

Como temos agido em nosso próprio cotidiano pessoal e familiar, em nossa prática profissional e em nossas relações com os fazeres diretamente ligados ao exercício de nossa cidadania? E já que falamos em cidadania, precisamos dizer que não nos referimos a uma cidadania regionalista ou nacionalista, mas a um novo modelo de cidadania, comprometido com cada ser vivente e por viver em nosso Planeta. Uma cidadania planetária.


Muitos pensadores têm-se referido à Terra como um organismo vivo, que age e interage em consonância com estímulos que recebe de todo seu entorno universal — ou seja, os estímulos que vêm do Cosmos, de fora. Além disso, a Terra recebe outros estímulos de sua própria superfície. São as conseqüência das ações de seus próprios habitantes. Não há muito que fazer quanto aos estímulos externos, isso é certo. Entretanto há muito o que fazer, muitas ações que se pode implementar desde já, no que diz respeito aos estímulos de superfície que os próprios homens têm aplicado à nossa Mãe-Terra. A Carta da Terra nos convida a refletir sobre isso, já.


Quando se fala em sustentabilidade e preservação ambiental, pensa-se logo nas ações que os governos, as grandes empresas e as grandes organizações não governamentais podem e devem implementar. Por exemplo, políticas de combate à poluição, ações que lutem contra a destruição e degradação do mundo. De fato essas ações são importantes e necessárias, mas não são suficientes. Precisamos, cada um de nós, adotar novos padrões de vida.



Escrito por Flávio Boleiz às 20h57
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A Carta da Terra e a nova cultura da água

Ao assumirmos a condição de cidadãos planetários devemos adotar, necessariamente, o respeito por todos os demais seres vivos, independentemente de que seres sejam ou de onde estejam. A Carta da Terra nos alerta para o fato de que “a capacidade de recuperação da comunidade de vida e o bemestar da humanidade dependem da preservação de uma biosfera saudável com todos seus sistemas ecológicos, uma rica variedade de plantas e animais, solos férteis, águas puras e ar limpo. O meio ambiente global com seus recursos finitos é uma preocupação comum de todas as pessoas. A proteção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é um dever sagrado.”


Como cidadãos planetários, precisamos passar a viver pautados em valores que perpassem todas as ações de nosso dia-a-dia, desde as mais simples até as mais complexas. Ações cotidianas que vão desde nossa higiene pessoal com um banho mais rápido para economizar água e energia, até o engajamento em projetos de luta pela igualdade e a inclusão social das minorias.


A Carta da Terra apresenta quatro princípios básicos, subdivididos em 16 itens que buscam propagar uma nova maneira sustentável de vida. Ela nos ensina que precisamos “respeitar a Terra e a vida em toda a sua diversidade”, reconhecendo a interdependência de todos os seres vivos e afirmando a fé na dignidade inerente de todos os seres humanos e de todos os demais seres vivos.


Precisamos “cuidar da comunidade de vida com compreensão, compaixão e amor”, preservando o meio ambiente e impedindo danos ambientais, respeitando e protegendo os direitos das pessoas e assumindo a responsabilidade pela promoção do bem comum.

 

Necessitamos “construir sociedades democráticas que sejam justas, participativas, sustentáveis e pacíficas”, que assegurem os direitos humanos e as liberdades fundamentais, promovendo a justiça econômica e social além de uma subsistência significativa e segura que seja ecologicamente responsável.


Devemos “garantir as dádivas e a beleza da Terra para as atuais e as futuras gerações”, reconhecendo que a liberdade de ação de cada geração é condicionada pelas necessidades das gerações futuras.


É preciso “proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos da Terra com especial preocupação pela diversidade biológica e pelos processos naturais que sustentam a vida.”


Precisamos nos conscientizar de que devemos “prevenir o dano ao ambiente como o melhor método de proteção ambiental e, quando o conhecimento for limitado, assumir uma postura de precaução”.


Temos que mudar o modelo econômico consumista e destruidor dos bens naturais e “adotar padrões de produção, consumo e reprodução que protejam as capacidades regenerativas da Terra, os direitos 
humanos e o bem-estar comunitário.”


É preciso “avançar o estudo da sustentabilidade ecológica e promover o intercâmbio do conhecimento adquirido e sua aplicação”, apoiando a cooperação científica e técnica internacional relacionada à sustentabilidade, com especial atenção às necessidades das nações pobres do Planeta.


Não é possível imaginarmos a construção de um outro mundo, sem “a erradicação da pobreza como imperativo ético, social e ambiental”.


Precisamos “garantir que as atividades e instituições econômicas em todos os níveis promovam o desenvolvimento humano de forma eqüitativa e sustentável”.


A Carta da Terra nos alerta, ainda, para a necessidade de se “afirmar a igualdade e a eqüidade de gênero como pré-requisitos para o desenvolvimento sustentável e assegurar o acesso universal à educação, assistência de saúde e às oportunidades econômicas.” É preciso “defender, sem discriminação, os direitos de todas as pessoas a um ambiente natural e social que seja capaz de assegurar a dignidade humana, a saúde corporal e o bem-estar espiritual, concedendo especial atenção aos direitos dos povos indígenas e das minorias”.

 

Tantas idéias imperativas na construção de um outro mundo só podem se transformar em realidade numa sociedade mundial que se baseie na democracia, na não-violência e na paz. Por isso é preciso “fortalecer as instituições democráticas em todos os níveis e proporcionar-lhes transparência e prestação de contas no exercício do governo, participação inclusiva na tomada de decisões, e acesso à justiça.”


Não podemos deixar de “integrar, na educação formal e na aprendizagem ao longo da vida, os conhecimentos, valores e habilidades necessárias para um modo de vida sustentável.”


Uma sociedade global democrática, preocupada com toda a comunidade de vida deve “tratar todos os seres vivos com respeito e consideração”, ao mesmo tempo que “promover uma cultura de respeito à diversidade, não-violência e paz.”.


Para todos nós, comprometidos com a construção de uma sociedade melhor, a formação de cidadãos planetários deve ser uma preocupação constante, meio que natural, em nosso dia-a-dia. Essa preocupação deve transcender a teoria e o discurso, materializando-se em todos os nossos afazeres cotidianos.


Historicamente o pensamento hegemônico doutrina os homens de modo a buscarem defender os bens da família e da pátria como virtude primordial no exercício da cidadania. Devemos propor à sociedade, a partir de nossa comunidade mais próxima, a Terra como pátria e a humanidade toda como grande família global com interesses em comum; distantes, mas igua lmente importantes, apesar das diferenças e peculiaridades de cada povo e cada comunidade. E quais são esses interesses da humanidade como um todo senão — pelo menos inicialmente — aqueles enunciados na Declaração Universal dos Direitos do Homem? De todos os homens?


Parece que se a vida passar a se pautar nesse interesse universal da humanidade, sem perder de vista o meio local onde os seres vivos estejam inseridos, já teremos iniciando um trabalho fundamentado 
nos valores e princípios da Carta da Terra, comprometida com a esperança que tanto buscamos de um mundo melhor.


Mais que simplesmente pretender levantar questões sobre o grande tema da sustentabilidade, é necessário apresentar-se um caminho de reflexões que norteiem nossa prática.


Estamos dando início a um encontro que buscará discutir uma nova cultura da água na América Latina. Nosso continente, massacrado por séculos de exploração ambiental, advinda do modelo colonial europeu aqui instituído, emerge de maneira monumental, dos pampas argentinos ao planalto brasileiro, das ilhas maravilhosas do Caribe às altitudes estonteantes dos picos andinos, do legado das civilizações incaicas, astecas e maias aos vulcões ativos que enfeitam a pele enrugada de nossa latinidade! E tudo isso nadando em muita água! Flutuando sobre o Aqüífero Guarani, banhado pelo Prata, pelo Paraguay, pelo Titicaca, por toda a bacia do Amazonas, pelo velho Chico e pelas águas sazonais do Pantanal. Sem falar na força do Orinoco, do Lago de Nicarágua e da maravilha exuberante da Foz do Iguaçu.


Tanta água! E, ao mesmo tempo, tanto desprezo por ela. Tanta água! E, ao mesmo tempo, tanta poluição. Tanta água! E, ao mesmo tempo, tanta miséria, tanto sofrimento causado pela seca e pela injustiça na distribuição da renda e do acesso aos bens naturais!


A Carta da Terra, marco ético para a construção de um outro mundo, nos convida à refle tir nas palavras de Don Federico Mayor, quando nos diz, na página principal do site deste evento (Encuentro por la nueva cultura del agua):


“Saber para prever, prever para prevenir. La prevención es la mayor victoria. No generalizar los criterios ni las soluciones, que tienen que considerarse y aplicarse caso a caso. Discutir, debatir, en comisiones pluridisciplinares, las distintas cuestiones.Y, entonces, movilizarnos en favor del “oro líquido” del siglo XXI, al que todos los seres humanos tienen el derecho de acceso: el água”.



Escrito por Flávio Boleiz às 20h56
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